Querido Diário #1 – Algo de Errado Não Está Certo

Querido diário,

Há mais de 1h eu estou chorando e não consigo parar de chorar. Tudo começou com uma coisa besta, sabe? Tinha planos para hoje, que mudaram de última hora – eu estava com tudo certinho na cabeça, ia ser perfeito e, de repente, não tenho absolutamente nada pra fazer. Fui conversar com minha colega de apê pelo Skype, contei pra ela o que estava acontecendo. Ela me aconselhou sobre o que eu deveria fazer a respeito da situação, mas deixei algumas palavras escaparem e ela me acertou com uma flecha no meio do peito.

“Sabe Cá, eu acho que essa saída da casa dos seus pais te afetou de uma forma que você talvez ainda não tenha parado pra pensar ou dado o devido valor. É algo que eu percebi há um tempo, em várias coisas que acontecem e eu acho que é por isso também que você sente tanto com outras coisas. É engraçado, até estranho te ver chateada por coisas tão simples.”

Em um outro momento, ela disse:

“Pára pra pensar um pouco sobre tudo que você precisou enfrentar esse ano – desde o acidente em Belém (sim, sofri um acidente de carro lá), até a sua saída de casa, a primeira vez que você saiu e ficou definitivamente longe da sua mãe, do Galileu, da Quinha… Você deveria se parabenizar por tudo isso. E aí eu acho que o motivo de você estar se sentindo tão mal com essas coisas pequenas que vêm acontecendo pode ser porque você tem se apoiado demais em algumas pessoas, esperando que elas sejam tudo isso que você sente falta – e isso deve estar te frustrando. E você tem que pensar que não é fácil, mas você está passando por muita coisa e tudo está acontecendo ao mesmo tempo.”

E, realmente, nunca tinha parado pra pensar sobre o quanto sair de casa me mudou e me afetou. O quanto eu tive que ser forte, pois da noite pro dia eu tive que deixar pra trás toda a minha estrutura. E a verdade é que eu fiquei desestruturada, mesmo – começar uma vida nova não foi nada do que eu imaginava que ia ser. E foi essa descoberta que eu comecei a escavar quando li tudo o que estava escrito naquele pop up do Skype, pois poucas coisas que eu ouvi (ou li) nessa vida tiveram um poder tão grande de me atravessar desse jeito. Em coisa de 15 minutos, desenterrei coisas que eu nem sabia que tinha guardado. Realmente, passei por muita coisa esse ano, e só parei pra olhar pra tudo uma semana antes do meu aniversário de 25 anos. No dia que eu fizer 30, acho que a reflexão muda um pouco.

Nós temos uma convicção muito grande dentro de nós que ser forte é deixar de sentir as coisas – o famoso coração gelado. E, de certa forma, eu adotei essa postura pra mim, porque no momento em que eu saí de casa, não tive tempo pra ficar de luto. Pra pensar. Pra deixar as lágrimas caírem. Me pegava dizendo “engole, você não pode chorar agora” – e hoje eu tô percebendo que não existe essa coisa de tempo pra chorar. Passei quatro meses guardando uma série de coisas dentro de mim, esperando que os outros fossem suprir uma necessidade que ninguém pode – além de mim mesma. O buraco que ficou é gigantesco, e os esforços das pessoas não fazem nada mais do que colocar um punhado de terra na cratera do metrô. Me vejo cercada de pessoas sensacionais, mas sem força pra aproveitar as coisas boas que elas estão me oferecendo, porque algo de errado não está certo – e só eu posso resolver esse problema.

Esse é um dos brindes que vem com a saída de casa: você aprende que só você é capaz de resolver os seus problemas, seja lavar o banheiro ou lidar com seus fantasmas internos.

Ela terminou com mais algumas palavras:

“Esse mal estar é, com certeza, só uma ponta de tudo o que você está passando. Você tem que reconhecer a mulher forte que você é e que esse ano foi foda. Se você não fosse forte, não estaria se cuidando, lutando. Você pode sempre contar comigo, e com muitas outras pessoas na sua vida. Mas eu acho que a sensação de desamparo é algo que independe das pessoas de fora, é algo muito mais interno e seu. Escreve, faz um diário, só pra você – se quiser dividir, você divide. Mas escreve.”

Querido diário, hoje tá foda. Esse ano tá foda. E eu não sei ao certo o que fazer.

Foto do post: Glon Fotografia
Blog Comments

Carlinha moro há dez anos longe dos meus pais (longe tipo 200km).
E tudo passa…garanto que você vai se acostumar tanto com essa vida que vai amar voltar pra casa deles, mas que você não se vê mais morando com eles…é um sentimento bem diferente…e garanto que a tua mãe deve estar aentindo bem mais que vc…bjs!

Oi Lu, realmente ela deve estar sentindo algo diferente… mudar é sempre bom, por mais que no começo isso pareça complicado, né?
Obrigada pelas palavras!

Obrigado por compartilhar isso com a gente!
Espero que tenha sido aliviador pra você. Quem vê você no virtual, te vê forte e não imagina tudo isso. E, pelo menos eu, lendo tudo isso, sinto que a minha dor, mesmo sendo diferente da sua, se confortam e se abraçam. Acredito que mesmo sem serem ditas, algumas palavras de ânimo e incentivo chegam a voce através do sentimento de carinho que tenho por ti.
Todas nós nos sentimos como suas amigas e queremos você bem.
Fica bem! ❤️

Obrigada pelas palavras, Steph! É difícil, mas não costumo aparentar que não estou bem. Tento ao máximo preservar as pessoas…

Que texto incrível! Saio de casa daqui uns dias, do interior pra morar em sP. Sei que não vai ser nada fácil, mas o que não nos mata, nos fortalece, né?
Beijos, e força!
Ps: vi que vc trabalha na Avon, vou fazer estágio lá! Ansiosa pra ver seu estilo de perto!

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